sexta-feira, 23 de julho de 2010

só hoje, tudo é breve

Lua cheia
Horas mortas
Vidas desertas
A tua boca seca
anuncia estrangulamento

Os teus ombros pesados
são colinas de mel
HOJE, quando nada
era estrada, nada tinha
movimento:
O tigre acendeu a sede

Foi sem querer, não foi
por mal
não quis dizer que acabou
Mas disse.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Píxel

É já dia de me recordar
de ti. É já morte de água,
a névoa que me persegue,
amanhã.
Sonho já - depois da
negra noite - em ter a
vida que tive, outrora.
Sirvo de pouco à lei
da vida, não me deixo
estagnar. Não vou
procurar novos lugares,
vou visitar e matar as
saudades que tenho dos
antigos lugares, nossos
eternos lugares.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Purificar

Nem pudeste falar-me. Uma palavra que fosse.
Nem uma pergunta, uma resposta.
Nada.
Permanece vã, a significante existência do bater do teu coração,
permanece vã, a minha existência. De um salto voámos, de um voo morremos.
Morri, eu.
Mas de mortes está a vida cheia,
um só grãozinho de negro sou eu - nesta vida toda.
Quase que me falaste. Quase que me pudeste falar. Uma pergunta, uma resposta.
Tudo.
E quase que disseste tudo assim, repentinamente,
de uma vez só.
Cuspiste o que tinhas para dizer. Mas isso foi há muito tempo, quando eu tinha o dom
de te encantar, ainda noite passeava os seus cabelos
pela tua pele.
Nunca senti ciúme da noite. Por mim, poderia tocar-te tanto quanto desejasse,
não tinha ciúmes.
Porque tudo o que é luz, é noite - e a toda a noite eras tu.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Tentáculo

Permito-me a certas coisas
invulgares,
Permito-nos aos nossos nossos
encontros.
Permito-me a ti, divago
nas cores que desenham
o teu rosto,
torno-me impessoal - esta
não costumava ser eu. Não
morro de desgosto, levo-me
do meu passado e absorvo
este novo começo.
Há pouco tempo apercebi-me
que estava na hora de viver,
obrigada por
me teres lembrado.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Constrangimentos

Hoje apercebi-me de
que o meu oxigénio
se desfaz
gradualmente.
Sou frágil,
sinto-me apertada
nesta pressão claustrofóbica
dos nossos meus
irremediáveis
sentimentos.
Entras por mim
adentro
descaradamente,
sem objectivos concretos,
simplesmente porque sabes
que tens permissão
para tal.
Mas por mim escorre
um flagelo de cólera
que me bloqueia os desejos
e me diz baixinho,
desesperadamente,
para cessar todas estas
recordações
repugnantes
robotizadas.
E por isso hoje,
antes que os dias
avancem
e eu regresse
aos meus reflexos primitivos,
obrigo-te-me a parar,
a afastar,
a morrer.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

from: Descrições


Acordo em vão, todos os dias

(que é sábio estar-se atento)...

Revejo-me em prata escurecida

e em louvor exijo, sem culpas,

que a véspera do teu sono

se aproxime descontroladamente

e que eu possa, ainda viva,

roubar a coragem destruída em nós

e mais tarde, quem sabe,

desfigurar as ondas negras do teu súbito

desaparecimento.